terça-feira, 19 de junho de 2012

Monólogo "O Cárcere"


Nessa peça de teatro, um pianista preso explora sua imaginação em busca de sentidos para uma sonhada liberdade. Alguns trechos que achei interessante:
"Quando menino me levaram no zoológico. Na jaula do macaco tinha um babuíno lá andando de lá pra cá. E daqui pra lá. E de lá pra cá. E daqui pra lá. Ele ia e voltava sem parar. De lá pra cá e daqui pra lá. Era desesperador. Todas as outras crianças estavam tomando sorvete de duas bolas. Eu também. Sorvete de duas bolas. Uma de morango, outra de chocolate. Os outros continuaram a tomar o seu sorvete e até acharam graça do bicho. Mas eu não. Eu estava chocado. Absolutamente apavorado. Meu sorvete começou a derreter todo. Me levaram pra bem longe dali. Até hoje tenho pesadelos com aquele macaco. De lá pra cá. Daqui pra lá"
(...)
"Pra você liberdade tem gosto de que? Pra mim tem gosto de visita aos domingos. Quado me trazem comida lá de fora. Por que a daqui é horrível. Liberdade, pra mim, tem gosto de frango à passarinho, frango ensopado. Tem gosto de frango assado, frango empanado, frango grelhado. Torta, de ... (pausa) frango."
(...)
"Eu gostaria de me vingar do cara que me dedurou. Queria muito me vingar. Sei que pode parecer estranho mas me vingar me traria uma sensação maravilhosa. Não queria dar um tiro. Queria ele me vendo o matando. Se eu pudesse matava igual se mata uma galinha. Amarrava de cabeça pra baixo e passava uma navalha no pescoço. Deixava ele sangrar e engasgar no próprio sangue até morrer.
Não! Mataria igual se mata um porco. Dava umas pauladas na cabeça e deixaria ele urrar. É isso que porco faz. Porco urra de dor. Eu deixaria ele urrando de dor até morrer"
(...)

O Cárcere
Texto: Saulo Ribeiro
Direção, atuação e iluminação: Vinícius Piedade

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